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Logistica do Futuro 2022

Brasil vive momento histórico na concessão de estradas e Europa pode nos inspirar

 

Publicado em 21/01/2022

Modelos de concessão de estradas não são caminhos rígidos e exemplos de outros países podem inspirar Brasil a construir sistema que favoreça motoristas


Foto: Divulgação

Artigo | Por Thomas Gautier *

Quem acompanha de perto as estradas brasileiras sabe que estamos vivenciando um momento histórico. A Via Dutra, que conecta o eixo Rio-SP, renovou sua concessão no maior leilão rodoviário da história do país, há alguns meses. Até o fim de 2022, o governo prevê que outros 14 trechos Brasil afora sejam leiloados, sendo mais de 8 mil quilômetros e de R$ 80 bilhões investidos.

Se o leitor pega a estrada para viajar, trabalhar, levar e trazer cargas, ou até consome produtos transportados pelas rodovias, a forma com que as concessionárias exploram esses caminhos vai, minimamente, influenciar no seu bolso. Por mais que uma notícia sobre concessão dessas rotas não seja das mais atraentes para quem é de fora do mercado rodoviário, recomendo tomar um mínimo conhecimento sobre o tema.   

Tendo nascido na França e trabalhado desde cedo em países diferentes, antes de me estabelecer no Brasil, sempre gostei (e ainda gosto) de acompanhar o que acontece nas estradas do mundo. Uma das maiores novidades na concessão da Dutra – e que já vem sendo adotada timidamente em outros trechos no país – é a criação de um sistema de pedágio free flow, muito comum na Europa. 

No free flow, a ideia é que o usuário pague pela quilometragem utilizada. Sua passagem pela rodovia é identificada por meio de uma tag instalada no veículo, ou reconhecimento automático da placa do carro (OCR). O modelo muda o padrão atual das praças de pedágio, universalizando a cobrança automática.

E qual a vantagem disso? Produz um sistema mais justo e eficiente. Por um lado, há motoristas que pagam um valor cheio, ainda que rodem um trecho curtíssimo. Por outro, com as praças afastadas em média entre 80 e 100 quilômetros, quem utiliza trechos dentro desses longos intervalos acaba não pagando pelo uso da estrada. Para compensar as perdas, aumenta-se o valor para quem realiza viagens maiores, como os caminhoneiros. 

O fardo no custo impacta nas margens dos motoristas de veículos pesados e, em cadeia, afeta o orçamento das empresas, bem como o valor final de produtos que chegam à loja, supermercado e e-commerce. O free flow, portanto, pode dar chance a equilibrar melhor os custos totais de transporte. Na prática, precisa ver se fará diferença.

Na Europa, há inclusive variações desse modelo. Na Suíça, embora caminhoneiros paguem pedágio de acordo com a quilometragem rodada, os motoristas de carro pagam uma taxa anual, que independe do quanto viajaram. Na Áustria, em vez da taxa anual, pode-se “comprar o uso” da estrada como em um sistema pré-pago, por dez dias.

Em 2022, uma das mais famosas redes de autoestradas do mundo, a Autobahn alemã, completará 90 anos da construção de seu primeiro trecho, que conecta Colônia a Bonn. Desde então, a gestão de suas pistas de velocidade ilimitada cabe ao governo e, ainda que tenha havido discussões sobre privatização ao longo do tempo, pesquisas indicam que 85% dos alemães desejam manter tudo como está.

Um posicionamento impensável no Brasil, onde 12% das rodovias são pavimentadas e as privatizações costumam ser associadas a trajetos de melhor qualidade. Um estudo da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), por exemplo, indica que as concessionárias investem mais que o dobro do valor destinado pelo governo a estradas, trazendo maior eficiência e segurança aos trajetos.

A CNT estima que a irregularidade das rodovias acrescente cerca de 30% ao custo operacional de transporte, incluindo gastos de manutenção dos veículos e reparo do motor, e até 5% a mais no uso de combustível.

A dificuldade de investimentos do setor público também reduz alternativas para os motoristas. Na França, em geral, eles podem escolher entre pegar o caminho concedido à iniciativa privada ou uma via alternativa, que não exige pagamento para uso. Na União Europeia, uma das crescentes preocupações é a sustentabilidade na estrada. Na COP26, em novembro último, ainda que tenha havido compromisso para encerrar as vendas de veículos emissores de carbono até 2040, países e fabricantes de relevância nesse mercado acabaram de fora do acordo.

Uma revisão do plano francês de concessão, em 2015, incluiu um “pacote verde”, que prevê a instalação de muro antirruído, revestimentos para reduzir poluição sonora, sistemas de decantação de águas, estacionamentos para incentivar o compartilhamento de veículos e o free flow. Estudos indicam, aliás, que o pedágio automático reduz em cerca de 60% o tempo para cruzar uma praça e até 90% do consumo de combustível no processo, dependendo da categoria do caminhão e do tempo de espera na fila.

Às vezes podemos ter a impressão de que o uso da estrada é um caminho rígido. Pelo contrário, existem diversas ideias e possibilidades capazes de nos inspirar a seguir um modelo que seja satisfatório para todos – principalmente para os motoristas e para a sociedade.   

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* Thomas Gautier tem 18 anos de experiência em grupos internacionais e assumiu como CEO do Freto em 2021. O executivo iniciou sua carreira na França e tornou-se CFO da Repom, no Brasil, em 2013. Em 2017, virou diretor-geral da Repom e, em 2018, passou a ser Head do Mercado Rodoviário do Grupo Edenred, quando, em sua gestão, o Freto nasceu.

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