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Inteligência de dados no Comex e a herança logística da pandemia

 

Publicado em 25/06/2021


* Por Helmuth Hofstatter

 

Empresas que atuam com importação marítima enfrentaram grandes desafios ao longo de 2020 por conta da estagnação do mercado devido à pandemia e, logo depois, com o aumento brusco nas demandas e fretes no final do ano passado. Entre esses acréscimos, o destaque ficou para os valores de fretes entre China e Brasil, que chegaram a quintuplicar no início de 2021 e se consolidaram como um dos maiores da história, atingindo valores de até 10 mil dólares.

Para entendermos melhor a dimensão desse aumento, alguns dados importantes: o preço de frete entre China e Brasil, em janeiro de 2020, era de US$ 1.989 por TEU (medida padrão usada para contêineres equivalentes a 20 pés) e despencou para US$ 500 no meio do ano, por conta da Covid-19, conforme o índice SCFI (Shanghai Containerized Freight Index). A partir de meados de 2020, o mercado reaqueceu e os custos das importações continuaram a subir, dessa vez por conta da retomada comercial. Foi no primeiro trimestre de 2021 que as taxas atingiram inéditos US$ 10 mil por TEU.

O cenário foi o seguinte: por conta da pandemia, a China estagnou suas relações no comércio exterior em janeiro e, nos meses seguintes, Brasil e o resto do mundo pararam seus fluxos de comércio. Nesse momento, passamos pela experiência prática da famosa lei da oferta e demanda, ninguém mais importava, os fretes marítimos desabaram e as embarcações de produtos para transações globais ficaram em standby. Armadores estacionaram seus navios para evitar custos operacionais, como manutenção e tripulação, e a taxa de importação despencou globalmente.

O mercado sempre esteve preparado para pequenos ajustes, já que a taxa de importação é algo que pode aumentar naturalmente. À medida que o comércio vai se aperfeiçoando, as ofertas de transporte também mudam. Empresas de frete, por exemplo, começaram a agregar mais serviços nas suas operações, o que acaba encarecendo todo custo final. Entretanto, quando a China e o mundo retomaram o comércio exterior, foi tudo muito intenso. Além de não repor o estoque vendido durante a paralisação do mercado global, varejistas aumentaram o volume de cargas importadas por conta das festas de fim de ano, mas os armadores ainda estavam voltando à ativa. 

Mesmo com um dos fretes mais caros da história, o comércio exterior precisava retomar as atividades. Além da reposição de produtos, vivenciamos um novo comportamento de consumo: com as pessoas mais tempo em casa, as compras online dispararam, afetando o volume dos produtos importados, principalmente da Ásia. Como reflexo desse boom no interesse pelo e-commerce, podemos citar, por exemplo, o crescimento nas receitas de vendas on-line, que subiram 41% em 2020.

Trabalhando intimamente com players do mercado, percebemos que muitos importadores foram pegos de surpresa,  e isso desestabilizou toda a logística internacional de uma maneira nova. Apesar do susto, a reviravolta no mercado fez com que as empresas buscassem otimizar seus processos e investissem em um departamento dedicado de inteligência de mercado para alcançar dados mais assertivos e seguros. 

Nesse momento, percebemos que muitos  importadores ficaram em uma situação mais vulnerável. As commodities agrícolas, por exemplo, sentiram mais o impacto e muitas acabam em situações economicamente inviáveis. Já quem importava produtos com alto custo agregado pôde diluir a taxa e ainda assim manter um aumento de preço razoável em seus produtos finais.

Ainda é difícil adivinhar quando o comércio voltará “ao normal”. Grandes importadores esperam que isso aconteça em meados de 2022. Até lá, sabemos que o mercado como um todo continuará apostando em soluções tecnológicas para reduzir perdas e prevenir gastos desnecessários de capital, como mapeamento de ações de concorrentes, tendências de produtos, previsões de mudanças de taxas, e análises logísticas que resultem em estratégias assertivas.

A escassez de contêineres e outros fatores do comércio internacional que provocam os altos valores de fretes marítimos para cargas vindas da Ásia continuam sendo uma realidade para os importadores brasileiros. 

É claro que a China continua sendo o principal parceiro comercial do Brasil, tanto na importação quanto na exportação. No último ano, o país asiático representou 33,6% de todas as exportações brasileiras e 21,8% de todas as importações. Hoje percebemos que o mercado já está reaquecendo, então a situação até que poderia melhorar mais rápido do que o previsto, já que o cenário parece estar pendendo ao favorável. 

O que aprendemos com o aumento exponencial da taxa de fretes marítimos da Ásia é que importadores devem estar sempre atentos para calcular suas operações de maneira mais estratégica, levando em consideração a realidade de cada empresa, perfil comercial e objetivos. Outro ponto importante é que no Brasil há uma taxa proporcional chamada AFRMM (Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante), cobrada sobre 25% do valor do frete. Com a alta do dólar, o imposto de importação acaba em um aumento em cascata.

A instabilidade de players do mercado foi  um dos fatores pelos quais a LogComex cresceu muito no ano passado. Com a instabilidade trazida pela pandemia, as informações estratégicas tornaram-se ainda mais relevantes. Empresas de inteligência e dados, como nós, entraram com soluções no momento certo. Acredito que, daqui pra frente, devemos ver mais companhias se interessando, se envolvendo e aprendendo a trabalhar com dados de mercado para guiar suas estratégias comerciais.

 

Helmuth Hofstatter é CEO da LogComex

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