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Logtechs: o bater de asas da borboleta para a revolução que o setor logístico precisa

 

Publicado em 01/09/2021

À medida que a transformação digital se aprofunda, crescem proporcionalmente os níveis de exigência, pois o básico já não serve


Foto: Divulgação

Artigo | Por Marcos Rodrigues*

A notícia de que startups especializadas em logística, ou logtechs, já usam o Certificado de Autorização de Voo Experimental (CAVE), expedido pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), para iniciar testes de entregas de produtos com o uso de drones parece sinalizar que a criatividade e a ousadia desse tipo de empresa serão suficientes para trazer ao setor toda a inovação que ele precisa para responder satisfatoriamente aos desafios que precisará enfrentar nos próximos anos. Mas só parece, pois, ao que tudo indica, o uso de tecnologias emergentes e modelos de negócios disruptivos originados por esses novos empreendedores podem ser comparados apenas ao bater de asas da borboleta – que, segundo a teoria do caos, seria o movimento inicial de uma grande transformação.

É verdade que antes mesmo da chegada da pandemia, as inúmeras dores do segmento já atraíam a atenção dos empreendedores devido à possibilidade de obter lucro com a oferta de soluções. Mas durante os momentos mais difíceis do combate à crise sanitária, as logtechs brilharam ao cumprirem o importante papel de aumentar a eficiência das empresas para fazer com que as mercadorias de todas as espécies chegassem às casas das pessoas. 

De uma forma ou de outra, o fato é que o país chegou rapidamente a um total de 290 startups inseridas nesse contexto, segundo o mapeamento Distrito Logtech Report 2020 – dessas, mais da metade foram fundadas há menos de 5 anos. Do total, 19% se dedicam a soluções de entrega, que é a principal preocupação das empresas de logística, mas também existem iniciativas voltadas à logística reversa, armazenamento de insumos e produtos, além de intermediação entre fornecedores, entre outras áreas.

Ocorre que à medida que a transformação digital se aprofunda, crescem proporcionalmente os níveis de exigência. Se antes o problema era apenas fazer com que a compra fosse entregue na casa do comprador em segurança e conforme a encomenda, agora isso é o básico. E o básico já não serve. Se até aqui um prazo de dois dias úteis para receber o bem adquirido era um período considerado razoável, daqui para frente já se considera que o padrão pode vir a ser rapidamente estabelecido como um intervalo de apenas algumas horas entre o pedido e a entrega.

Alcançar esses indicadores sem comprometer a saúde financeira das empresas de logística é, sem dúvida, uma tarefa que não pode ser tratada apenas como responsabilidade das logtechs. A busca por esse novo padrão de eficiência deve ser encarada como uma causa por toda a cadeia produtiva, pois depende da resolução de problemas estruturais antigos relacionados, por exemplo, à normatização da atividade do operador logístico.

Neste sentido, uma das primeiras ações precisa ser um esforço concentrado de sensibilização do Congresso Nacional pela votação do Projeto de Lei 3757/20 que regulamenta a atividade de operador logístico no Brasil. A proposta estabelece um marco legal para o setor com regramento jurídico que elimina as diversas Classificações Nacionais de Atividade Econômica (CNAE) às quais as empresas são submetidas.

Na prática, o que acontece é que, apesar de oferecerem toda a jornada de atividades necessárias para a execução do trabalho logístico, essas organizações acabam sendo enquadradas em segmentos separados desta esteira como "Transportadora Rodoviária de Carga", "Armazém" ou empresa de "carga e descarga", entre outras denominações. Isso acaba gerando uma diversidade de enquadramentos tributários e muita insegurança jurídica para os negócios. Consequentemente, a legislação trabalhista também é confusa, complexa e conflitante, conforme define a Associação Brasileia de Operadores Logísticos (ABOL).

No mês de maio, foi encerrado o prazo de cinco sessões para os parlamentares sugerirem emendas ao projeto com um total de 16 modificações inseridas.  Agora a pauta aguarda pela apresentação do relatório do Deputado Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL).

Mas a simples aprovação do marco legal do setor logístico também não será capaz de acelerar a evolução na velocidade necessária. Paralelamente a esta conquista deve ser feito um profundo diagnóstico da atividade para identificar tanto os gargalos quanto as alternativas para eliminá-los. Felizmente algumas iniciativas já estão surgindo nessa direção.

Uma delas é uma ampla pesquisa que está sendo conduzida pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) com o apoio da Associação Brasileira de Logística (Abralog).  O estudo, intitulado “Transporte e Desenvolvimento: E-commerce”, vai procurar desvendar todos os aspectos relacionados à logística necessária para fazer rodar o comércio eletrônico, tendo como foco o transporte.  A intenção é que os resultados sejam conhecidos no início de 2022 e que eles mostrem claramente as condições oferecidas aos agentes envolvidos neste trabalho tornando claros os desafios e as tendências dessa área.

Que novos estudos, novas leis e novas atitudes se somem ao movimento das logtechs para que a transformação da logística não seja interrompida como um simples bater de asas de uma borboleta.

 

*Marcos Rodrigues é sócio da MRD Consulting.

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