Informe os dados de acesso para entrar na área do assinante.

Ultimas tendencias - assinatura

O efeito do Corona vírus no setor de logística e transportes

 

Publicado em 23/03/2020

*Por Marco Antonio Oliveira Neves

 

Ninguém poderia imaginar que um ser, bilhões de vezes menor que o ser humano, poderia causar tamanho impacto na vida das pessoas, abalando não apenas os países subdesenvolvidos, mas também as super potências mundiais. Por sorte, o impacto ainda tem sido muito pequeno no continente africano, que conta com um sistema de saúde extremamente frágil e que já enfrenta diversos outros tipos de problemas, como a fome e surtos de malária, HIV e tuberculose, senão, a tragédia seria ainda muito maior.

Fala-se, atualmente, em contração do PIB brasileiro em 1%, mas, seguramente, será muito maior. Muitas empresas e famílias estão endividadas, e isso só tende a piorar. A crise econômica anterior já tinha debilitado a economia, e com essa “pancada” adicional, o “nocaute” será inevitável. O PIB brasileiro totalizou R$ 7,3 trilhões em 2019, portanto, cada mês representa R$ 600 bilhões. Imagine, então, um país parado por 2-3 meses? Reflita sobre o impacto nas redes hoteleiras, companhias aéreas, empresas de transporte de passageiros, pequenos e médios comerciantes, autônomos, etc. Tudo muito grave, gravíssimo! Se o Governo não intervir e não fizer o seu papel, teremos uma catástrofe, que levará o país a mais uma década perdida.

O “rombo” provocado pela pandemia será proporcional à duração do isolamento social e às vidas humanas ceifadas pelo Corona Vírus. Por quanto tempo tudo isso se estenderá? Só Deus sabe. Pode durar 15 a 30 dias, o que é muito improvável, mas também poderá levar até 6 meses ou mais. Os efeitos serão devastadores, não apenas sobre a economia mundial, mas também sobre a saúde mental e o comportamento das pessoas, empresas e nações. Como cantou Roberto Carlos, na música “Se você pensa”, “daqui pra frente, tudo vai ser diferente, você tem que aprender a ser gente, seu orgulho não vale nada, nada...”.

Chegará um momento em que o “estoque” de assuntos, piadas, memes, músicas e filmes vão terminar, e isso fará com que muitas pessoas abandonem seus lares e tentem retomar a normalidade do convívio social. Outras o farão em função da questão financeira, especialmente aqueles que dependem de si próprios para obter o seu sustento. Aos poucos migraremos de um pensamento coletivo para um comportamento individualizado, principalmente se as estatísticas de contaminação e morte apresentarem melhoras. Tudo isso poderá impactar no progresso das medidas preventivas, e prorrogar a pandemia no Brasil. Lembre-se que somos mais parecidos com italianos do que com asiáticos, e essa nossa exuberância no trato e na comunicação com as pessoas poderá nos custar milhares de vidas adicionais. Observe a evolução da pandemia na Coréia do Sul, Japão e na própria China; de forma silenciosa e rápida eles conseguiram controlar a evolução do vírus.

Certos de que sofreremos com tudo isso, qual o impacto econômico sobre o setor de logística e transporte de cargas?

O setor portuário e especialmente aqueles prestadores de serviços dependentes da movimentação de contêineres deverão ser duramente afetados; já aqueles que operam com o agronegócio sentirão menores impactos negativos.

Ninguém será mais afetado do que o setor de carga aérea e as transportadoras que atuam diretamente com carga expressa e super expressa. Os aeroportos terão sua atividade reduzida a praticamente zero em função do isolamento social. Para as empresas que atuam exclusivamente no transporte rodoviário expresso, o resultado será inverso, e provavelmente, altamente positivo.

Também sofrerão as consequências da pandemia aquelas transportadoras que atuam diretamente com bens não considerados essenciais neste momento, como móveis, artigos de decoração, utensílios domésticos, papelaria, material de construção, eletroeletrônicos e informática, telecomunicações, têxtil e calçados, joias e outros itens de luxo, bens importados em geral, etc.

Fabricantes de máquinas e equipamentos e toda a cadeia metalúrgica e siderúrgica também deverão ser impactados negativamente; a indústria química deverá sofrer menos por estar presente em todos os setores produtivos.

Também serão afetadas as Transportadoras e Operadores Logísticos fortemente dependentes do setor automotivo, já que a comercialização e consequentemente a produção de veículos e caminhões será reduzida devido às incertezas no curto e médio prazo. Montadoras e sistemistas deverão parar e entrar em férias coletivas.

E em função da redução expressiva do deslocamento das pessoas, o consumo de gasolina, etanol e diesel diminuirá sensivelmente, impactando no transporte de combustível em caminhões tanque. Nesse cenário, o setor de food service também deverá ser afetado, já que shoppings estarão fechados e restaurantes de rua com o funcionamento limitado.

Transportadoras e Operadores Logísticos focados na indústria do lazer (no qual incluímos os eventos em geral) e em logística promocional serão amplamente impactadas. Aglomerações serão proibidas e os eventos postergados para o segundo semestre, se tudo normalizar.

Por outro lado, as Transportadoras e Operadores Logísticos atuantes com alimentos e bebidas no mercado interno, segmento PET (animais de estimação) e saúde humana / animal deverão apresentar desempenho positivo. Idem para as empresas especializadas no comércio eletrônico e no atendimento de grandes redes atacadistas e varejistas, que se depararão com um aumento considerável no volume de movimentação de mercadorias. O setor hospitalar também estará em franca ascensão, por motivos óbvios. 

O agronegócio deverá sofrer algum tipo de desaceleração, mas apresentará um desempenho razoável. Idem para setores como HPPC (Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos) e materiais de limpeza, especialmente marcas que substituam os fabricantes “premium”, que deverão sofrer um impacto maior devido à restrição 

orçamentária da grande maioria das pessoas.

O cenário é preocupante. Não há muito o que fazer, a não ser atender às recomendações propostas e impostas pelo poder público e pelos especialistas em saúde pública. E precisamos orar, para que o nosso sofrimento seja abreviado e tudo retome a sua normalidade o mais rápido possível. 


Marco Antonio Oliveira Neves é diretor da Tigerlog Consultoria e Treinamento em Logística Ltda

Quer se manter atualizado em logística e supply chain?
Clique aqui e saiba mais!

 

Veja também: