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Ensino superior em Logística no Brasil: o desafio de expandir oportunidades e incluir, de fato, a inovação

 

Publicado em 15/02/2022

Alta demanda por profissionais de Logística faz as atenções se voltarem para o status da educação brasileira – que, apesar de ter avanços, ainda esbarra em obstáculos que impedem a qualificação efetiva

Por Christian Presa


Foto: Shutterstock

Segundo uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) em parceria com a Educa Insights, 6 a cada 10 entrevistados disseram que iniciar um curso de ensino superior está nos planos para 2022 – no final de 2020, a mesma pesquisa apontou que apenas 38% dos participantes tinham intenção de se matricular no semestre seguinte.

Isso demonstra que, cada vez mais, a busca pela formação acadêmica é algo que https://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.png?id=1428624&o=node https://agenciabrasil.ebc.com.br/ebc.gif?id=1428624&o=node faz parte dos interesses da população brasileira. Isso inclui, entre outras áreas, a Logística. Não é pra menos: segundo um levantamento realizado pelo LinkedIn, houve um aumento de 40% em relação à procura de profissionais de Logística na plataforma em 2021.

Com essa demanda em alta, voltam-se as atenções para as possibilidades que um profissional interessado em se especializar em Logística tem no Brasil e, com isso, surgem alguns questionamentos. Um dos principais é referente ao perfil desse profissional.

Segundo André Duarte, professor e pesquisador do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) desde 2002, era comum que, há alguns anos, os interessados pelos cursos de Logística fossem pessoas do sexo masculino e engenheiros – normalmente da área de Engenharia de Produção – que estivessem trabalhando na área de logística. No entanto, isso vem mudando. “Atualmente, temos observado um aumento significativo na quantidade de mulheres, das mais diversas áreas de formação atuando em empresas de logística, de manufatura, varejo e serviços, incluindo pessoas do setor público”, explica.

O mesmo é apontado por Orlando Fontes Lima Junior, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Laboratório de Aprendizagem em Logística e Transportes (LALT) na mesma instituição. “Vem aumentando a participação das mulheres e reduzindo o tempo médio de formado dos ingressantes”, pontua.

Há que se fazer, no entanto, uma diferenciação entre o perfil do estudante e profissional que busca o ensino em Logística. De acordo com o professor titular e coordenador do Laboratório de Desempenho Logístico da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Carlos Taboada, o aluno do curso de graduação é, em muitos casos, caracterizado pela falta de experiências e conhecimentos na área e tem uma visão mais operacional dos aspectos envolvidos no gerenciamento logístico. Já o estudante de pós-graduação – no caso do lato sensu, que são as especializações – possui conhecimento e prática em atividades logísticas mais aprofundadas. “o perfil da turma de alunos costuma ser bastante heterogêneo. Já tive experiência em cursos de especialização nos quais atuei em diferentes faculdades no Brasil com médicos, veterinários, oficiais do exército, enfermeiros, só para mencionar alguns casos”, descreve.

Taboada pontua que essa relação com outras áreas foi algo construído ao longo dos anos, ao passo em que a percepção do conceito de Logística ia além de relacioná-la apenas com as operações de transporte. “Com essa evolução, foi mudando o perfil dos que procuravam esse tipo de formação.”

No entanto, Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura, Supply Chain e Logística da Fundação Dom Cabral e pesquisador responsável pela Plataforma de Infraestrutura em Logística de Transportes, ressalta que o principal perfil é técnico, independendo de graduação ou pós-graduação.

“O fato de a pessoa já ter um curso de graduação não significa que sua vida profissional não seja de nível técnico”, explica Resende. “Portanto, a grande demanda não se dá para se ter um cargo de gestão, mas porque o conhecimento em logística não existe com profundidade na graduação e os técnicos precisam estar preparados para o nível operacional.”

Apesar disso, a professora e coordenadora do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain da Fundação Getulio Vargas, Priscila Miguel, observa que os cargos de gestão são mais comuns entre os alunos da pós-graduação, especialmente de profissionais das áreas de Engenharia e Administração. “[São profissionais] que não tiveram uma formação completa na área de Logística e SCM, mas que optaram pela área. Eles trabalham com Compras, Planejamento, Estoques, Logística, Armazenagem e Transportes, Distribuição, Customer Service, Logística Internacional e até mesmo Operações e alguns de área Comercial.”

De acordo com ela, há também uma forte adesão de profissionais que atuam no varejo, setor hospitalar, serviços, e-commerce e delivery. “Os profissionais buscam conhecimentos sobre novas tecnologias, riscos e sustentabilidade e uma visão de negócio de toda a cadeia”, analisa.

O CENÁRIO DO ENSINO EM LOGÍSTICA NO BRASIL

Apesar da – já citada – alta na demanda pelo profissional de Logística, Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral, destaca que os cursos de graduação têm ficado cada vez mais escassos. “No princípio da década de 2000, tínhamos uma grande oferta devido ao fato de a logística ser uma espécie de ‘moda’ vinda dos EUA e Europa. Observo que a oferta de cursos tem diminuído, mas, em compensação, disciplinas no contexto da logística empresarial tem sido cada vez mais inseridas nos cursos de graduação e mestrado.”

De fato, o que se observa na prática é que não existe um número significativo de cursos de graduação – em formato de bacharelado, que qualifica o profissional para atuar no mercado – nessa área no país. “Os que existem são, na maioria, ênfases de cursos de Administração”, explica Orlando Fontes Lima Junior, da Unicamp.

O mesmo é ressaltado por Carlos Taboada, da UFSC. De acordo com o coordenador do Laboratório de Desempenho Logístico, ainda não se aproveitam as particularidades territoriais e regionais para potencializar os cursos. “Isso significa que são ofertados cursos presenciais de caráter generalista e, em determinados polos, não são capitalizadas as características regionais para potencializar essas formações”, explica, citando a Logística Portuária no Vale do Itajaí (SC), a Logística Hoteleira em Salvador (BA) e o foco no varejo na região do Ceará.

O cenário muda quando se fala em cursos técnicos. Orlando Fontes Lima Junior destaca os cursos de tecnólogo em Logística das Fatecs, distribuídos pelo estado de São Paulo. “Acho que o caminho é este, pois o tecnólogo tem uma formação prática maior e sai para o mercado de trabalho em menos tempo, atendendo bem à demanda.”

Há também que se citar o advento do Ensino a Distância (EAD), acelerado durante a pandemia de Covid-19, mas que já estava em crescimento exponencial mesmo antes disso. Segundo Carlos Taboada, isso irá demandar novas formas de realizar o ensino-aprendizado.

“Este horizonte oferece uma relativa ‘democratização’ na formação em Logística ao abrir o acesso a pessoas não localizadas nos tradicionais polos com faculdades que tem operado de forma presencial. Mas precisa ser bem dimensionado e adequada esta formação com o EAD para poder conseguir o adequado desenvolvimento das competências necessárias ao profissional”, acentua o docente.

LEARNING BY DOING E ALUNO NO CENTRO: AS METODOLOGIAS ATIVAS DE ENSINO

Nos últimos anos, a educação brasileira tem sido impactada pelo surgimento e construção de novas metodologias de ensino. Uma delas é o Learning By Doing, caracterizado pelo ato de “aprender fazendo”. Proposto pelo educador e filósofo John Dewey, em 1938, esse conceito tem a proposta de que o aluno atue em projetos que possibilitem a aplicação de aprendizado teórico no desenvolvimento de habilidades práticas. Nesse sentido, segundo Dewey, a aprendizagem deve ser relevante e prática.

O professor titular do Insper, André Duarte, ressalta que um bom curso de Logística, tanto na graduação como na pós-graduação, deve aliar teoria e prática. De acordo com ele, na instituição em que leciona, são utilizadas diferentes metodologias no ensino – com bastante sucesso. “O ensino por meio dos chamados métodos centrados no aluno, que colocam os alunos como protagonistas no processo de aprendizado, como estudos de casos, simuladores, aprendizagem baseada em problemas, desenvolvimento de projetos reais em empresas, bem como as tradicionais visitas e palestras com profissionais da área, ajudam na compreensão e aplicação prática do conhecimento de logística.”

Carlos Taboada também cita o Learning by Doing como uma evolução do modelo tradicional – segundo ele, “teórico, expositivo e passivo”. “Já existe uma consolidação deste método de ensino, estudado e estruturado por vários pedagogos, e se caracteriza por ser um ciclo continuo com o seguintes estágios:  agir, que estaria baseado na experiência concreta existente; refletir, levar a uma observação dos fenômenos que não seja passiva e, se não ativa, reflexiva; Conceitualizar, em um plano com determinado grau de abstração; e aplicar, que não seria mais do que a aplicação pratica, experimental e de forma ativa.”

O aprendizado baseado em um sistema ativo de aprendizado é citado por Priscila Miguel, da FGV. No entanto, a docente destaca a importância de que haja um equilíbrio – com o aluno sendo corresponsável nesse processo. “Os cursos precisam mesclar disciplinas mais técnicas com conteúdo de conhecimento geral e endereçar questões comportamentais.”

O que predomina, nesse caso, é o modelo híbrido entre teoria e prática. De acordo com Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral, estudos de casos se destacam como uma das principais metodologias. “Agora, porém, outros conceitos começam a se destacar como data analytics, modelagem de processos logísticos, inovações tecnológicas e suas relações com os processos logísticos”, destaca.

EDUCAÇÃO EM LOGÍSTICA: FUTURO PROMISSOR, MAS AINDA É PRECISO EXPANDIR

Como enfatiza Orlando Fontes Lima Junior, da Unicamp, a educação, não só para a logística, será sempre essencial. “Especificamente em Logística e Supply Chain, vem surgindo uma Nova Escola que já tem no seu DNA temas como e-commerce, resiliência, inteligência artificial e gestão de risco, por exemplo. Temos um gap imenso do que tratava a Velha Escola, surgida na década de 50 e cuja grande revolução foi o surgimento do Supply Chain.”

Essa evolução do que Orlando Fontes cita como “Nova Escola” vai ao encontro da visão de Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral. O especialista diz que, ao seu ver, o sucesso da educação em logística no Brasil está na conjunção entre a logística e as inovações tecnológicas. “As inovações tecnológicas mudarão e comandarão os caminhos da logística. Se a educação em logística não incorporar tais inovações como elemento fundamental do desenvolvimento dos processos logísticos, pode-se ter um retrocesso.”

Segundo Priscila Miguel, da FGV, o que deve ter impacto nesse processo é o fato de a alta administração das empresas estarem reconhecendo a Logística como vital para os negócios. “Aliado à adoção de novas tecnologias e novos modelos de negócios e ao crescimento do comércio eletrônico, a busca por talentos na área deve crescer. E os profissionais precisam buscar conhecimento constante para antecipar e resolver problemas complexos. As instituições de ensino precisam constantemente atualizar seu conteúdo para atender as demandas do mercado.”

A coordenadora do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain da Fundação Getulio Vargas destaca outro ponto que deve estar no radar da Logística Brasileira: a diversidade. “Este ponto precisa ser incluído nos diversos cursos."

Nesse mesmo sentido, Orlando Fontes Lima Junior pontua que a boa educação em Logística vai depender do apoio de todos os atores desse cenário ao desenvolvimento de pesquisas sobre a realidade brasileira. “Isso é criar um fluxo continuo da tão falada inovação. Temos que nos libertarmos das relações de dependência que este setor tem com as teorias e práticas internacionais. Devemos utiliza-las sim, mas com capacidade crítica para selecionar o que, de fato, vale para nossa realidade.”

 

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